
Por Richard Awlinson
Helm, O dos Olhos que Nunca Dormem, Deus dos Guardiões, permanecia vigilante, observando seus companheiros deuses. A assembléia estava completa. Cada deus, semi-deus e elemental estava presente. As paredes do grande panteão que recebia os deuses haviam desaparecido há muito tempo, mas as janelas permaneciam, pendendo no ar vazio, e através delas Helm olhou para um universo caindo em decadência. O panteão, com seus inúmeros altares inacabados, estava localizado no coração da decadência cancerosa; ele fora construído em uma ilha que era apenas grande o suficiente para abrigar o local de encontro dos deuses.
Um caminho feito de pedras cinzas flutuava para fora dali através do mar de decadência para um destino que estava além da visão dos deuses. Era a única avenida de fuga do panteão, mas nenhum dos deuses havia sido tolo o suficiente para dar o primeiro passo sobre aquelas pedras ásperas, temendo que o caminho pudesse levá-los para um lugar ainda mais aterrorizante do que este.
O ar ao redor da ilha era um tecido branco pontilhado com estrelas de ébano. Faixas de luz, tão brilhantes que nem mesmo os olhos de um deus podiam olhar para elas por muito tempo, adentravam em chamas a tapeçaria de marfim. As faixas formavam runas, e Helm tremeu ao lê-las.
Tudo o que era se foi. Tudo o que conhecemos, tudo em que acreditamos é uma mentira. A época dos deuses está próxima do fim.
E então as runas desapareceram. Helm imaginou se um dos deuses convocados havia enviado a mensagem críptica em uma tentativa de assustar os outros, mas descartou a idéia. Ele sabia que as runas haviam sido enviadas por um poder maior que qualquer dos deuses à sua volta.
Helm escutava o monótono clangor do trovão enquanto gigantescas nuvens cinza com veios de relâmpago negro aglomeravam-se e sombras caíam pelo panteão. O céu de puro branco foi obscurecido pelas nuvens, e o caminho de pedras que, à deriva, saía do panteão, despedaçou-se e caiu pelo vasto mar de decadência.
Helm fora o primeiro a ser convocado. Em um momento ele estava em seu templo, engolindo suas recentes falhas como guardião para Senhor Ao. No momento seguinte ele estava de pé, sozinho, no panteão. Logo seus companheiros deuses começaram a aparecer. Os deuses pareciam desorientados, enfraquecidos pela jornada até este lugar que era afastado de tudo o que se conhecia.
As convocações chegaram vestindo o rosto e a forma daquilo que cada um dos deuses mais temia. Para Mystra, a Deusa da Magia, ela mostrou-se como um arauto do caos mágico. Para a bela Sune Cabelos-de-Fogo, Deusa do Amor e da Beleza, ela apareceu como uma criatura desgrenhada, tomada pelo câncer, gritando contra seu destino enquanto entregava Sune ao seu. Ao Senhor Negro, Bane, a convocação veio nas vestes de amor e compreensão absolutos, com uma luz que queimava sua essência enquanto ela o carregava de seu reino.
Helm só teve que olhar um pouco para o lado para ver o Senhor Bane, a Senhora Mystra, e o Senhor Myrkul em uma discussão acalorada que teve como clímax a partida rude de Mystra para procurar companhia mais apropriada. Olhando para outra direção, Helm viu Llira, Deusa da Alegria, com uma expressão levemente preocupada, apertando as mãos distraidamente, e então dando conta de si mesma e encarando as mãos com horror. De pé ao seu lado, Ilmater, Deus do Sofrimento, não pôde conter uma estável rajada de risadas enquanto dançava em seu lugar, sussurrando opiniões e comentários para ninguém em particular.
Enquanto Helm estudava os rostos dos deuses, um pequeno grupo de divindades que não foram afetadas de modo tão traumatizante pela convocação o cercaram. O Deus dos Guardiões tentou ignorar os apelos destes deuses, cuja dignidade aparentemente não mais importava a eles, enquanto choramingavam e agarravam-no por mais informações.
- Meu lar foi destruído! Meu templo nos Planos foi estilhaçado! - Deus após deus repetia a reclamação, mas Helm estava surdo a suas palavras.
- Ao emitiu uma convocação. Tudo será esclarecido na hora certa - Helm disse a cada um deles, mas logo se cansou de repetir e, por fim, avisou ao pequeno grupo de deuses para que se afastassem. A mudança estava vindo. Disso não havia dúvida, Helm concluiu enquanto pensava sobre a vontade de seu patrono imortal, Ao.
A vontade de Ao havia sido tão grande que ele ergueu-se da bruma rodopiante do Caos no início do tempo e pôs-se a criar um equilíbrio entre as forças da Ordem e do Caos. A partir deste equilíbrio veio a vida: primeiro, com a criação dos deuses nos céus, e então, com a dos mortais nos Reinos. Ao, Criador de Todas as Coisas, escolhera Helm para ser seu braço direito. E Helm sabia que foi o poder de Ao que trouxe os deuses a este lugar de loucura e confusão.
Enquanto Helm permanecia quieto em seus pensamentos, Talos, Deus das Tempestades, deu um passo à frente. - Um fim à trapaça, digo eu! Se nosso senhor deseja esclarecer algo, deixe-o falar, deixe sua sabedoria encher nossos corações empobrecidos e nossas mentes vazias! - Talos disse "sabedoria" com o máximo de contentação que pôde reunir, mas os outros não ficaram convencidos. Seu medo era tão evidente quanto o deles.
O desafio de Talos não foi respondido, e todos os que se encontravam à distância de um braço do Deus das Tempestades afastaram-se dele. No silêncio que seguiu à reação de Talos, houve uma resposta mais irritante do que qualquer proclamação; no silêncio foi ouvida a finalização do julgamento de Ao. Foi então que os deuses compreenderam que seu destino, qualquer que fosse, fora selado muito antes desta convocação. Aquele terrível silêncio preenchia o grande salão, mas foi logo rompido.
- Guardiões do Equilíbrio, dirijo-me a todos vocês!
Era a voz de Ao, e naquela voz podia ser ouvido o poder de um ser tão grande que os deuses caíram de joelhos em resposta. Apenas o Senhor Bane conseguiu manter-se sobre um joelho no frio chão do panteão.
- Sua herança era das mais nobres! Seu era o poder de findar com a ameaça perpétua de desequilíbrio entre Ordem e Caos, e ainda assim vocês escolhem agir como crianças, recorrendo a furtos mesquinhos em sua busca por poder...
Bane subitamente pensou se o ser que dera vida aos deuses há muito tempo convocara suas criações até este lugar para desfazer seu erro e começar novamente.
- A extinção ainda pode ser seu futuro, Bane - Ao proclamou, como se os pensamentos do Senhor Negro houvessem sido falados em voz alta. - Mas não deixe que isso o preocupe, pois este destino seria um dos mais misericordiosos se comparado com o que logo o acometerá - e aos outro deuses que traíram minha confiança.
Foi Helm que então deu um passo à frente. - Senhor Ao, as tábuas estavam sob minha vigilância, deixe que...
- Silêncio, Helm, ou sofrerá um destino semelhante ao deles.
Helm virou-se e olhou para a assembléia de deuses. - Vocês deveriam saber seu crime, ao menos. As Tábuas do Destino foram roubadas.
Um facho de luz surgiu da escuridão e envolveu o Deus dos Guardiões. Fiapos de chama branca fecharam-se sobre os pulsos e os tornozelos de Helm, e ele foi erguido por uma distância imensurável, quase além dos sentidos dos outros deuses, que ficaram boquiabertos enquanto assistiam. Helm, que nunca fora erguido de seus pés antes, rangeu os dentes inutilmente enquanto olhava para uma mancha de escuridão maior que qualquer escuridão já vista, uma escuridão que vivia e desejava consumir, uma escuridão que era a fúria de Senhor Ao.
- Está com seus companheiros e não com seu patrono, bom Helm?
Através de dentes cerrados, o deus respondeu. - Sim.
Subitamente Helm foi lançado para baixo, sua descida rápida demais e brutal demais para ser acompanhada pelos sentidos dos outros deuses. Sangrando e machucado pelo impacto, Helm esforçou-se para erguer-se e encarar seu senhor novamente, mas a tarefa estava além dele. Seus companheiros deuses não fizeram movimento algum para ajudá-lo, nem cruzaram olhares com seus olhos que imploravam enquanto ele caía, com o rosto de encontro ao chão de pedra do panteão.
Lampejos ocasionais de luz revelavam faixas negras de energia que se moviam cada vez mais para perto dos deuses.
- Não mais sentar-se-ão em suas torres de cristais, olhando para os Reinos com desprezo como se eles houvessem sido criados simplesmente para entretê-los.
- Exílio - Bane murmurou sem fôlego.
- Sim - disse o Senhor Myrkul, Deus dos Mortos, enquanto um calafrio chegava até mesmo ao centro de sua alma sem vida.
- Não mais ignorarão o próprio propósito pelo qual receberam a vida! Conhecerão suas transgressões e lembrar-se-ão delas eternamente. Vocês pecaram contra seu patrão e serão punidos.
Bane sentiu os tentáculos de escuridão se aproximarem.
- O ladrão! - Mystra gritou. - Deixe-nos descobrirmos a identidade do ladrão para você e devolver as tábuas!
Tyr, Deus da Justiça, ergueu os braços implorando. - Não nos deixe pagar a mesma pena pela tolice de apenas um de nossos irmãos, Senhor Ao! - Escuridão, como um chicote, cortou o rosto de Tyr, e ele caiu para trás, gritando e apalpando seus olhos, agora inúteis.
- Vocês não veem nada além da salvação de suas próprias peles!
Os deuses estavam em silêncio, e as faixas negras atiravam-se entre eles, fazendo com que os deuses chegassem mais perto uns dos outros, como se estivessem empurrando-os, deixando-os juntos, para criar um único alvo para a fúria de Ao. Os deuses gritaram - alguns de medo, alguns de dor. Não estavam acostumados a tal tratamento.
- Covardes. O furto das tábuas foi a afronta final. Vocês devolvê-la-ão a mim. Mas primeiro, pagarão o preço por um milênio de decepção.
Bane encarava as faixas de energia e, subitamente, as tiras vivas de escuridão explodiram em chamas cegantes de uma fria luz azul que o queimaram. Ele esquivou-se da luz e viu Mystra de relance enquanto ela também resistia, com um leve sorriso marcando suas feições. E então as faixas prenderam Bane, e seu mundo encheu-se de dor que só um deus poderia imaginar ou aguentar.
Após uma eternidade de tormento, todos os deuses foram pegos pelas escuras tiras de poder e apertados juntos um ao outro. Apenas nesse momento as divindades descobriram que o movimento e o pensamento eram possíveis novamente.
E o medo. Disso eles sabiam intimamente.
Finalmente, o Senhor Talos conseguiu falar. Sua voz estava fraca e áspera, suas palavras escapavam em espasmos assustados. - Acabou? Será que aquilo foi tudo?
Subitamente, o panteão pareceu desaparecer e os deuses, ainda presos juntos, encontraram-se bem de frente com aquilo que mais assustava cada um deles - caos, dor, amor, vida, ignorância. E cada deus viu a sua própria destruição ali também.
- Isso foi apenas uma amostra de minha fúria. Agora, bebam bastante do cálice da fúria de um verdadeiro deus!
Um som foi ouvido então, incomparável a qualquer outro.
Os deuses gritaram.
Mystra esforçava-se para reter algum vestígio de controle enquanto encontrava-se caindo através de um vórtice fantástico que desafiava a realidade. Ela sofria uma dor excruciante enquanto a divindade lhe era arrancada. Mas a Deusa da Magia não estava sozinha em seu tormento. Todos os deuses, exceto Helm, foram lançados dos céus.
Após um tempo, Mystra despertou nos Reinos. Ela assustou-se ao perceber que sua forma fora reduzida a sua essência primária. Seu corpo era pouco mais que uma massa brilhante de luz azul-e-branca.
- Você tomará um avatar - a voz de Ao ressoava em sua mente. - Você possuirá o corpo de um mortal e viverá como um humano. E então talvez você aprecie o que um dia considerou eterno.
E então ela estava sozinha.
A deusa caída hesitou por um momento, enquanto as palavras do Senhor Ao giravam e giravam em sua mente. Se ela tivesse que tomar um avatar, possuir um corpo de carne e osso, então Ao realmente pretendia manter os deuses fora dos Planos. Apesar de Mystra ter suspeitado que Ao puniria seus servos por suas falhas - e ela havia até mesmo planejado para esse evento, enviando em segredo um fragmento de seu poder para os Reinos - a deusa simplesmente não podia compreender a perda de sua posição, a perda de seu belo palácio nos céus.
Mystra olhou em volta e quase chegou a tremer, da maneira que seria possível em seu estado sem forma. A terra ao seu redor seria bem atraente para mortais: colinas redondas estendiam-se ao redor da Deusa da Magia, e um antigo castelo desmoronado dominava o horizonte ao oeste. Sim, a maioria dos humanos acharia esta cena pacífica, Mystra pensou, mas é uma imagem repulsiva se comparada ao meu lar.
Nirvana, o plano da Ordem definitiva, abrigava o domínio de Mystra. Era uma área perfeitamente regulada, infinita, onde a luz e as trevas, o calor e o frio, estavam idealmente equilibrados. Ao contrário do cenário caótico dos Reinos, Nirvana era estruturado como o interior de um imenso relógio, com engrenagens iguais e ordenadas encontrando-se em junções ideais. Em cada uma destas engrenagens ficava o reino de um dos deuses leais que habitavam o plano. É claro que Mystra via seu reino como o mais belo em Nirvana, em todos os Planos, na verdade.
A Deusa da Magia estudou o castelo em ruínas por um momento, e então, silenciosamente amaldiçoou Ao. Mesmo quando aquelas ruínas estavam recém-construídas, seriam apenas um armário em meu lar, Mystra pensou com amargor, e imagem de seu magnífico palácio brilhante veio à sua mente sem ser convidada. O castelo que preenchia seu reino era construído de pura energia mágica, extraída diretamente da trama de magia que rodeava Faerûn. Como tudo o mais em Nirvana, o palácio era perfeitamente estruturado e eterno. Suas torres eram todas da mesma altura exata, suas janelas, das mesmas dimensões. Até mesmo os tijolos feitos por magia que constituíam o castelo eram idênticos um ao outro. E no centro do lar de Mystra ficava sua biblioteca, que continha cada livro e pergaminho, listando cada feitiço de que já se tivera conhecimento no mundo, e alguns que ainda não haviam sido descobertos.
Mystra voltou seu olhar para as escuras nuvens de tempestade que enchiam o céu. - Terei meu lar novamente, Ao - ela disse suavemente. - E o terei em breve.
Enquanto a Deusa da Magia olhava para as nuvens em movimento, ela viu de relance algo brilhando no ar. Quando tentou focar-se no facho que parecia pender das nuvens, sentiu-se tonta. Ainda estou confusa pelo ataque de Ao, ela pensou, e tentou novamente ver o que estava bruxuleando do céu até o chão próximo ao castelo em ruínas. Em um momento, sua visão clareou-se e ela reconheceu a imagem incerta à sua frente.
Uma Escadaria Celeste.
A escadaria, que mudava de forma continuamente enquanto Mystra a observava, era um caminho comum para os deuses viajarem entre seus lares nos Planos e os Reinos. Apesar de Mystra ter raramente usado as pontes para Faerûn, ela sabia que havia muitas delas espalhadas pelos Reinos e que levavam a um nexo nos céus. O nexo, por sua vez, levava ao lar de todos os deuses.
A escadaria mudou de uma longa espiral de madeira para uma bela escada de mármore enquanto Mystra, ainda com a vista cansada, a observava. Então a deusa subitamente percebeu porque era tão difícil para ela focar-se na Escadaria Celestial: ela só era visível para deuses ou mortais de grande poder. E agora ela não era nenhum dos dois.
Aquela revelação empurrou a deusa caída para agir, e ela pôs-se a recuperar o fragmento de poder que escondera com um de seus fiéis nos Reinos nas horas antes da convocação de Ao. Mystra começou a lançar um feitiço para localizar sua reserva de poder. Mesmo em sua forma nebulosa, a Deusa da Magia completou facilmente os gestos complicados e recitou o encantamento necessário para o feitiço. Mas, ao terminar de recitar, nada aconteceu.
- Não! - Mystra gritou, e sua voz ecoou pelas colinas. - Você não pode roubar minha arte, Ao. Não permitirei isso!
A deusa tentou lançar seu feitiço novamente. Uma coluna de energia verde explodiu do chão e moveu-se rapidamente para engolir Mystra. Ela gritou quando a energia atingiu sua forma sem substância. Raios de luz verde atiraram-se pela nuvem de bruma azul-e-branca que era a Deusa da Magia, fazendo com que Mystra gritasse de dor. Sua visão repousou sobre as nuvens negras girando ao redor da Escadaria Celestial nos segundos antes que ela perdesse toda a consciência.
No topo da escadaria, no nexo dos Planos, o Senhor Helm, Deus dos Guardiões, observava Mystra caindo inconsciente pelo feitiço mal-lançado. Helm ainda estava machucado e sujo de sangue pela fúria de Ao, mas, ao contrário dos outros deuses, ele ainda retinha a forma que geralmente assumia nos Planos: um guerreiro imenso de armadura com olhos que não piscavam pintados em suas manoplas de aço.
Os olhos de Helm estavam límpidos, mas refletiam sua tristeza quando ele virou-se e olhou para cima, para a nuvem negra pulsante que assomava sobre ele. - E a minha punição, Senhor Ao?
Houve silêncio por um tempo. Quando Ao falou, Helm concordou em silêncio. A resposta a sua pergunta não era inesperada.
cara eu so loco pra les esses livros mas nem em ingles eu acho eles
ResponderExcluirc vc puder me indicar onde achar eu agradeço muito ^^ des de ja obrigado